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quarta-feira, 16 de março de 2011

Filmografia – Stanley Kubrick

Por Renildo Rodrigues

Stanley Kubrick. Nome polêmico, tanto pela obra provocadora quanto pelo temperamento, recluso e difícil. Nascido em 1928 em Nova York, Kubrick descobriu o cinema ainda na infância, assistindo aos clássicos de Howard Hawks, Max Ophüls e Luchino Visconti. Com a ajuda da família e amigos, o diretor rodou o primeiro curta aos 23 anos. O primeiro longa, Fear and Desire (1953), chamou a atenção da indústria e o colocou no mapa. Ao todo, foram 13 filmes, em gêneros que vão do noir à ficção científica. Kubrick morreu em 1999, aos 70 anos, com seu último trabalho (De Olhos Bem Fechados) lançado postumamente.


Fear and Desire (1953)
Rejeitado pelo diretor, que o considera “amador” demais, não tem edição em DVD. Pode ser encontrado na Internet, mas ainda não o vi.

A Morte Passou por Perto (Killer’s Kiss, 1955) – 3/5
Típico filme de “cineasta-prodígio”, cheio de truques de câmera e luz que existem só para chamar a atenção. Mas vale pelo clímax, uma tensa perseguição que leva a um embate num depósito de manequins.
O Grande Golpe (The Killing, 1956) – 5/5
Primeiro clássico do diretor, e possivelmente seu melhor trabalho, ao lado de 2001 e Laranja Mecânica. Com uma estrutura narrativa original para a época (eventos são vistos novamente pelos olhos de outro personagem), O Grande Golpe carrega também no humor negro, dando fôlego a uma história batida: a do roubo que dá errado.

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957) – 4/5
Um choque para a época. Glória Feita de Sangue foge ao maniqueísmo dos filmes de guerra para fazer uma envolvente reflexão moral, cujo mote é a execução de três soldados por covardia. Os movimentos elegantes de câmera mostram a evolução de Kubrick como cineasta.

Spartacus (1960) – 3½ /5
Kubrick herdou a cadeira de Anthony Mann na história do escravo Spartacus. Mesmo na condição de contratado, o diretor imprime sua marca: um épico (o único do cinema) sem traços de cristianismo, com cenas de batalha admiráveis até hoje, algumas delas envolvendo centenas de figurantes. Talvez “o” épico, mas que, por seu próprio gênero, soa datado hoje em dia.
Lolita (1962) – 4/5
Adaptação do controverso romance de Vladimir Nabokov, sobre a paixão de um professor de meia-idade por uma adolescente. Apesar do tema escandaloso e da época (1962!), Kubrick driblou a censura e entregou um filme sexy, a um só tempo sóbrio e apaixonado, ainda que não à altura – superlativa – dos seguintes.

Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964) – 4½ /5
Uma sátira arrasadora sobre a Guerra Fria. O destaque é Peter Sellers, à vontade em três papéis diferentes – entre eles, o insano Dr. Strangelove. O final é um soco no espectador. Ou melhor, uma bomba.
2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968) – 5/5
Um marco do cinema, com inovações que dividiram opiniões em 1968 – e o fazem até hoje. Espécie de “fantasia científica” com reflexões metafísicas, 2001 é o filme mais pretensioso da história. Só mesmo Kubrick para torná-lo possível, com apoio de efeitos de ponta e uma trilha sonora bastante ousada.

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971) – 5/5
Terceira obra-prima do diretor, Laranja Mecânica foi ainda mais longe na polêmica: inspirados no sádico Alex, jovens ingleses provocaram um surto de violência e tumultos, o que obrigou Kubrick a uma decisão radical: proibir sua exibição no país. Triste ironia para uma trama que satiriza a violência inerente ao homem.

Barry Lyndon (1975) – 4/5
No visual, o oposto de 2001: um filme de época, com figurinos reais, fotografado à luz de velas (!). No conteúdo, a ascensão e queda de um jovem irlandês na alta sociedade inglesa. A narrativa elegante transcorre sem pressa, o que pode ser um martírio nestes tempos de Transformers.
 O Iluminado (The Shining, 1980) – 4½ /5
             Qual não deve ter sido a surpresa do público quando Kubrick, um artista conhecido pelo refinamento (mesmo sob a carga maciça de sexo e violência em Laranja Mecânica) sucedeu Barry Lyndon com um filme de... terror, o mais “pobre” dos gêneros? O Iluminado, no entanto, só fica atrás de O Exorcista na arte de meter medo. Prova de que o talento (ou o gênio), quando verdadeiro, não conhece fronteiras.

Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987) – 3½ /5
A versão de Kubrick para o Vietnã. A primeira parte é excelente. A segunda tem seus momentos, mas sai perdendo na comparação.

 De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999) – 3½ /5
O último filme do diretor causou um grande burburinho quando foi anunciado, sobretudo por especulações quanto ao seu conteúdo sexual. Não é para tanto: trama sobre o desejo que desemboca em suspense surrealista, De Olhos Bem Fechados confunde os registros e perde força no final. Ainda assim, é repleto de grandes momentos, como o diálogo entre Tom Cruise e Nicole Kidman no quarto e a sequência da mansão.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Soundtracks – Stanley Kubrick

Stanley Kubrick (1935-1999) é um nome que costuma exaltar os ânimos dos cinéfilos, capaz de “rachar” qualquer discussão de botequim.

Diretor, roteirista, fotógrafo, montador e produtor, Kubrick responde por algumas das obras mais ousadas e vigorosas da Sétima Arte, inspirando novos cineastas e assombrando o público há décadas.

Arrisco dizer que não há pessoa que goste de filmes que já não tenha visto Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) ou o arrebatador 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), para ficarmos somente nos famosos.

Mas uma análise da obra cinematográfica de Kubrick (que já foi tema de um Biografia na nossa 2ª temporada do SET UFAM) não é o tema do post de hoje.

E sim a influência que ele exerceu sobre um outro aspecto de seu ofício: as trilhas sonoras. Tudo porque, num belo dia, Stanley resolveu desencavar alguns LP’s de sua coleção.

Não, não foi tão casual assim. Kubrick mudou tudo porque precisava, na prática, de algo que combinasse com as imagens ritmadas da obra que estava filmando à época – 2001.

É sabido, porém, que, com o filme ainda na fase de pré-produção, Kubrick encomendara ao compositor Alex North (com quem trabalhou em Spartacus) uma trilha sonora original (e convencional). Foi na fase da montagem que a ideia piscou: sem a música de North, que ainda não estava pronta, Kubrick, que concebeu algumas daquelas imagens a partir da música que ouvia em casa, resolveu incorporar essas peças ao filme.

Claro que, sendo Kubrick quem era, o que ele ouvia em casa era para poucos (ou pouquíssimos): o poema sinfônico de Richard Strauss, Assim Falou Zaratustra, o balé Gayane, de Aram Khachaturian, e a música dissonante e assustadora de György Ligeti. Perto disso, a valsa Danúbio Azul, de Johan Strauss II, era quase um agrado.

Em termos cinematográficos, contudo, a trilha se encaixou à absoluta perfeição. Ficou impossível, desde então, dissociar algumas sequências do filme da música poderosa que as acompanha. Que tal ver o nascer do sol ao som do Zaratustra, pairar no infinito com o Danúbio ou vislumbrar atônito o monólito com o Réquiem? Quem já viu 2001 há de concordar.

O sucesso dessa combinação inspirou Kubrick a dar um passo além no trabalho seguinte, Laranja Mecânica.

Desta vez, para espanto dos puristas, o diretor mexeu com monstros da envergadura de Beethoven e Rossini, de quem incluiu, respectivamente, a Nona Sinfonia e a ópera La Gazza Ladra.

Não contente, ele pediu que o vanguardista Walter Carlos mexesse em alguns dos temas, inserindo tratamentos eletrônicos, além de criar composições novas. O resultado não foi tão positivo: as intervenções do músico ficaram datadas rapidamente, não poupando nem a magistral Nona.

Por outro lado, é o mesmo Carlos quem garante a perenidade da tracklist: os sintetizadores lúgubres da sua versão de Música para o Funeral da Rainha, de Henry Purcell, e Timesteps, de sua autoria, são obras-primas de um período pré-Kraftwerk.

Mas a melhor de todas é mesmo a trilha que Kubrick criou para Barry Lyndon (1975).

Melhor até do que o filme em si (e olha que, pra mim, ele pertence ao primeiro escalão do diretor), a música reflete a opulência dos círculos aristocráticos retratados na trama: a Sarabanda de Händel, o Concerto para Violoncelo de Vivaldi, o Concerto para Duas Harpas, de Bach, e, acima de todos, o esplêndido Trio para Piano, Violino e Violoncelo de Schubert.

Conduzida pelo maestro Leonard Rosenman, a trilha rendeu a Barry Lyndon um dos únicos Oscar já conquistados por um filme de Kubrick (o outro foi o de Efeitos Especiais por 2001, descontando-se o de Melhor Fotografia em Spartacus, que foi obra de Kubrick, mas pela qual Russell Metty levou o crédito).

Novamente em catálogo desde 1999, é a seleção mais preciosa do diretor.

Por último, vale mencionar a música em De Olhos Bem Fechados (1999).

O derradeiro trabalho de Stanley Kubrick tem uma trilha sonora marcadamente sexy, à maneira das imagens na tela. Ela também traz à tona uma paixão antiga, mas pouco explorada, pelo diretor: o jazz..

Kubrick, que na adolescência foi baterista em diversos conjuntos, usa algumas das gravações mais hot dos pianistas Oscar Peterson (“I Got It Bad [and That Ain’t Good]”) e Brad Mehldau (“Blame It on My Youth”), além de standards (“When I Fall in Love”, “Strangers in the Night”) e, claro, música erudita (Musica Ricercata, de Ligeti, e a Valsa II da Suíte para Orquestra de Variedades, de Shostakovich).

Você pode baixar essas trilhas nos seguintes links:

2001: http://www.mediafire.com/?yejc68sdlzi

Laranja Mecânica: http://www.mediafire.com/?tyxmmtwkbyk

Barry Lyndon:

http://rapidshare.com/#!download|881tl4|409203032|BarLyn.rar|74755

De Olhos Bem Fechados: http://www.mediafire.com/?22neyiozy5n

E aqui vai um dos trechos da genialidade de Kubrick em "2001: Uma Odisséia no Espaço":


Até o próximo Soundtracks!