quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Crítica: O Que Esperar Quando Você Está Esperando, de Kirk Jones

Por Renildo Rodrigues


Na virada dos anos 90 pros 2000 (você ainda lembra?), uma pequena produtora inglesa chamou a atenção dos cinéfilos por sua série de comédias românticas espirituosas, inteligentes, e charmosas até dizer chega. O nome da companhia era Working Title, e os filmes... bem, os títulos falam por si:Quatro Casamentos e um Funeral (1994), Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), Alta Fidelidade (2000), O Diário de Bridget Jones (2001), Um Grande Garoto (2002), Simplesmente Amor (2004).

Todas conseguiam, aparentemente sem esforço, produzir o difícil equilíbrio entre momentos cômicos e aqueles mais reflexivos, todas faziam bom uso do elenco, e, o melhor de tudo, todas tinham ótimos roteiros, com piadas sutis e inteligentes, sem precisar apelar à grosseria ou ao nonsense rasteiro.

Bom, os anos passaram, a Working Title já não é mais pequena, dedicando-se hoje a produzir séries de TV e filmes pro Oscar, e a comédia romântica mudou de mãos, indo do humor pueril e “masculino” de filmes como O Virgem de 40 Anos e Superbad ao amontoado de clichês sobre namoro e casamento dos filmes ditos “femininos”, estrelados por Sandra Bullock, Kate Hudson e Cameron Diaz.

É no filão desta última que se encaixa O que Esperar Quando Você Está Esperando, filme dirigido por Kirk Jones, não por coincidência um egresso da Working Title (ele foi o diretor do divertido Nanny McPhee – Uma Babá Encantada), cuja influência é aparente em cada cena deste longa.

O que Esperar..., baseado no best-seller de mesmo nome, parece ser uma versão de Simplesmente Amor com pais e mães de primeira viagem no lugar dos casais. Lá está o mesmo esquema das histórias paralelas, o mesmo grande número de personagens, até os mesmos artifícios usados no outro filme para ligar as tramas. O que falta, lamentavelmente, é a mesma inteligência do roteiro.

O filme gira em torno de cinco casais “principais”: Jules (Cameron Diaz, no papel habitual de Cameron Diaz), personal trainer que apresenta um reality show sobre perda de peso, e Evan (Matthew Morrison), dançarino, que também está num programa de TV, estilo Dança dos Famosos, o que leva o namoro dos dois a ter cada lance exposto nas câmeras.

Wendy (Elizabeth Banks), dona de uma loja de produtos para crianças que é convidada a fazer uma palestra sobre gravidez, e Gary (Ben Falcone, ótimo), dentista atrapalhado e inseguro que é oprimido pelo pai bonitão.

Ramsey (Dennis Quaid), famoso ex-piloto da Nascar que namora a modelo Skyler (Brooklyn Decker), a qual contrata, para seu álbum de gravidez, a fotógrafa.

Holly (Jennifer Lopez, fraquinha), que não pode ter filhos e decide adotar uma criança da Etiópia, junto com o marido, Alex (Rodrigo Santoro, eficiente como sempre), que não está muito empolgado com a ideia.

E a prima de Skyler, Rosie (Anna Kendrick, com a melhor atuação do filme), cozinheira de uma lanchonete que engravida após uma noite com o ex-colega de escola Marco (Chace Crawford).

Além deles, temos ainda o “Clube dos Caras”, um grupo de pais formado por Vic (Chris Rock, dono, de longe, das melhores falas do filme), Gale (Rob Huebel), Craig (Thomas Lennon) e Patel (Amir Talai), que se reúne nos fins de semana para passear com os filhos, longe da marcação cerrada das “patroas”, e aos quais Alex se junta para aprender mais sobre a paternidade.

Ah, e todos assistem ao programa de Jules, do qual Gary já participou.

Com tantos personagens e tramas, é inevitável que algumas sejam melhores do que outras: a de Jules e Evan, por exemplo, passa que você nem percebe; Ramsey e Skyler têm pouco tempo em cena, embora as suas sequências com Gary e Wendy estejam entre as melhores do filme; e o final da história de Marco e Rose é bem sem graça.
O nível geral do filme, infelizmente, não é muito melhor. São muitas as piadas batidas, como se tivessem juntado as gags sobre grávidas de outros dez filmes e colado nesse. Por sinal, é curioso notar como, em um filme sobre a maternidade, as mulheres têm um retrato menos favorável e até aparecem menos do que os homens.

Outra marca nefasta de comédias recentes é o recurso a coadjuvantes bobos, flatulências e fluidos corporais diversos. Tá, não chega a ser um Missão Madrinha de Casamento, mas isso também não é nenhum mérito, certo?

Com o roteiro medíocre, resta elogiar o bom elenco, com destaque absoluto para Anna Kendrick, que confirma, mais uma vez, ser uma das melhores atrizes de sua geração, e a montagem, que une as diversas histórias com agilidade e fluência. Muito pouco para uma produção com esse mote, com esses atores, e com aqueles filmes como inspiração.

Nota: 6,5

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