
O presidente é um mito por ter liderado os Estados Unidos durante um dos momentos mais críticos de sua história, pelo seu exemplo de vida e pela sua morte trágica. Há uma vasta literatura sobre o estadista do Partido Republicano. Dentre os filmes mais recentes sobre ele, podemos citar Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros e Lincoln, de Steven Spielberg.

Em quase duas horas e meia, o filme desenvolve suas três linhas narrativas. Ele mostra a vida privada do presidente. Pai preocupado, não quer que o filho Robert (Joseph Gordon-Levitt) vá para a guerra. Suas ações para selar a paz se norteiam, sutilmente, no instinto paterno. Ao mesmo tempo, o longa mostra um Lincoln frustrado com o casamento. Sua mulher, Mary Todd (Sally Field), afirma por vezes seguidas que ele não a queria como companheira. Entremeado a isso, vemos o caminho que a 13ª Emenda percorreu para ser aprovada. Caminho esse, aliás, marcado por atalhos heterodoxos (leia-se subornos e pernadas em adversários políticos) propostos, às vezes diretamente, pelo presidente. Com menos destaque, cenas da Guerra Civil são mostradas. A ida do protagonista a um campo de batalha, perto do final, marca pela crueza e pelo simbolismo, ao mostrar pilhas de corpos e a bandeira dos confederados, os estados do sul, dando lugar à americana.


Com a fotografia se parecendo com a de séries por causa dos seus planos fechados, Lincoln tem seus melhores momentos quando se foca nas motivações da emenda e nos percalços por que sua aprovação passa. A narrativa também mostra as articulações por detrás dos panos. Os que sofrem de Complexo de Vira-Latas vão poder ver que conchavos, distribuição de afagos e promessas de cargos não são exclusividade da política nacional. As tramoias, sutis, ficam longe de alcançar a podridão que Tudo Pelo Poder e Game Of Thrones revelam.

Parece que ele nos diz o seguinte: "olha o que tivemos que passar e enfrentar para chegarmos até aqui". Spielberg opta por deixar expressões preconceituosas, como "nigger" e "colored", no roteiro, inclusive em falas do presidente, para ser fiel ao vocabulário da época e também para reforçar os percalços que a luta pelos direitos civis passou.
O patriotismo de Lincoln vem sendo alvo de críticas. Afinal de contas, afirmações como "os EUA são o farol que guia o mundo" se repetem com certa frequência durante a narrativa. Tendo em vista que a obra fala sobre o presidente que manteve a nação unida, o sentimento nativista é compreensível. Há, inclusive, beleza no respeito aos ancestrais e no amor à terra e aos conterrâneo em que ele também se baseia. Além disso, em Lincoln, a defesa do excepcionalismo americano não se baseia na inferiorização de um outro povo, ao contrário de Argo.

A profundidade com que trata sua temática chega a ser uma aresta, dependendo do espectador. Se este conhecer pouco da história e da política dos Estados Unidos, é provável que algumas cenas, como as discussões sobre o passado do casal Lincoln, ficarão, para ele, sem sentido ou sem a força planejada pelo diretor.

O filme foi lançado durante as eleições americanas. Barack Obama, o primeiro presidente negro do país, buscava a reeleição tendo apoio maciço de setores liberais da sociedade. Um trunfo seu era a reforma no sistema da saúde, que dividiu a população, apesar de a medida lhe parecer óbvia de tão necessária. Por esses motivos, comparações e analogias a Lincoln marcam o momento atual de Obama e ganharam força, direta ou indiretamente, com o filme de Spielberg. Dessa forma, vemos a influência da ficção no cotidiano, as repetições de padrões nos processos históricos e como a realidade de hoje poderia, felizmente, assustar contadores de histórias racistas do século retrasado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário