Filmes desagradáveis, de difícil digestão, sempre provocam opiniões divergentes na plateia. Há os que gosta e há os que odeiem. Sempre tive uma visão meio neutra em relação a isso, pois há filmes desagradáveis de se assistir que são maravilhosos, ao mesmo tempo que há uma série de trabalhos que querem provocar reações exacerbadas na plateia, escondendo uma narrativa pífia, que não chega a lugar nenhum, tentando chocar quem assiste utilizando-se de artificialismos formulaicos.
Na minha opinião, o problema só existe quando a plateia não se permite conhecer esse estilo de filme, com o surpreendente argumento de que não precisam ver a maldade, o lado ruim, ou as coisas desagradáveis presentes nas pessoas da sociedade em que vivemos, afirmando que filmes desse tipo corroboram esse comportamento. Com isso, elas acabam mostrando uma visão rasa e deturpada da proposta por trás desse tipo de filme, e assim se privam de experiências fantásticas proporcionadas por essas obras, pois situações como essas também fazem parte do significado do que é arte.
A trama do filme se passa em uma lanchonete. A gerente da loja, Sandra (Ann Dowd) recebe um telefonema da polícia, do Oficial Daniels (Pat Healy) dizendo que uma mulher foi até a sua delegacia e acusou uma de suas atendentes, Becky (Dreama Walker) de furto, e que inclusive o dono da loja já havia sido acionado, e estava ao lado do policial incentivando-o a ligar para a gerente e verificar essa situação.
Pressionada, Sandra chama Becky para uma sala, e depois de questiona-la, por diversas vezes, se ela havia feito o roubo, a suposta assaltante nega tudo veementemente. O Oficial Daniels afirma que no momento não tem como mandar uma equipe para o local, por estar em uma operação na casa de Becky, afirmando que ela pode estar envolvida em uma trama ainda maior, e com isso, pede para que Sandra reviste a suspeita. Só que com o tempo, os pedidos do Oficial Daniels vão ficando cada vez mais estranhos e invasivos, causando uma série de traumas para Becky.
Iniciando o filme, com letras gigantescas, aparece a mensagem de que o filme é baseado em fatos reais. Na grande maioria dos casos, esse é um artifício utilizado por filmes de narrativa pobre, que se utilizam do fato para ganhar credibilidade com o público, como se fossem muletas. Mas, em "Compliance", essa escolha se mostra acertada, pois o que vemos no decorrer da trama seria realmente difícil de acreditar se não fôssemos alertados por essa mensagem.
Mas depois de um certo tempo, o que é difícil de acreditar transforma-se em algo possível de percebermos que é perfeitamente factível, ainda mais em um país como os Estados Unidos, em que a crença nas Instituições, em especial a polícia, é seguida de maneira quase cega e religiosa.

Também é fantástico ao mostrar como o comportamento das pessoas muda em uma situação como essa. Becky, que começa como suspeita de furto, com o passar do tempo é julgada e condenada por Sandra, mesmo que a única evidência de que ela realmente roubou o dinheiro, seja o depoimento de uma pessoa que diz ser policial, que ela nem conhece. Além de mostrar como o namorado de Sandra, Van (Bill Camp), primeiro se mostra desconfortável com a situação, mas que depois de certo tempo, também se aproveita dela, com o álibi de que ele só estava fazendo aquilo por receber “ordens superiores”.


E se fiquei angustiado, tenso e incomodado no decorrer da história, no final me senti imensamente recompensado por ter visto um filme desagradavelmente brilhante.
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