A França legou ao mundo, com sua revolução de 1789, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Pátria de onde saiu o primeiro filme da história, ela vem enfrentando tensões sociais relacionadas aos imigrantes, principalmente os vindos de suas ex-colônias da África. Racismo, xenofobia e preconceito religioso caracterizam estas tensões, que desconstroem a beleza dos ideais que norteiam o país.
Naturalmente, esta aresta da sociedade francesa já foi tema de filmes. Há aqueles que a exploram mais diretamente, como Entre os Muros da Escola. Outros mostram a força dela por retratarem-na em contextos aparentemente pouco propícios para discussões sobre preconceito, como o longa sobre le parkour Yamakasi.
Intocáveis também poderia seguir o caminho da crítica social. Afinal de contas, trata-se da relação entre um imigrante negro e pobre e um milionário tetraplégico e branco. Em vez disso, os diretores Olivier Nakache e Éric Toledano optaram pelo foco na amizade dos dois, que melhora a ambos e supera diferenças sociais. Dessa forma, poderíamos facilmente ter um feel-good movie genérico de tamanho médio.
No fim das contas, acrescentados humor ácido ali e mensagem humanista acolá, o temos.


Philippe ganha um amigo que o enxerga para além do explícito. Influenciado por Driss, torna-se menos formal, especialmente com as mulheres. Por outro lado, Driss, incentivado por Philippe, conhece mais sobre suas aptidões artísticas e, graças ao trabalho, se torna mais responsável e consciente do seu papel na sua família desestruturada.

Este elemento é minimizado com as atuações de Omar Sy e François Cluzet. Os dois notoriamente se divertem com a história e constroem os personagens com respeito a ela. É difícil de se afirmar se é mais interessante a autoconfiança ora ingênua, ora gaiata, de Driss ou a conformação altiva e autoirônica de Philippe perante sua condição irreversível. O timing cômico deles é de uma acidez e afinação bem próprias. Potencializam-no cenas como a descrição do prazer sexual que Philippe sente pelos lóbulos ou o conhecimento de Driss sobre música clássica por causa de Tom&Jerry.
As duas maiores arestas do filme são, seguramente, a família de Driss e a filha de Philippe. Enquanto esta não faria falta à história se não existisse, aquela não tem seus dramas desenvolvidos. Praticamente intuímos a barra por que eles passam e não sabemos direito quem é irmão, tio, primo, papagaio e periquito, pois essas informações não são ditas e muito menos mostradas. Porém elas também são minimizadas pela atuação da dupla de protagonistas.


Diante do exposto, deixo duas perguntas: Os Intocáveis é ajudado pelo fator político até em que ponto? E é saudável passarmos panos quentes nas falhas do filme por causa das atuações brilhantes dos protagonistas? Vamos batendo bola nos comentários.
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